A Europa dos elétricos tem dois mundos muito diferentes, e Portugal está do lado que ninguém esperava
Os carros 100% elétricos já representam mais de um em cada cinco automóveis novos vendidos na Europa, mas por trás desta média esconde-se um continente a duas velocidades muito distintas. Segundo o mais recente European Car Market Monitor do International Council on Clean Transportation (ICCT), a quota de elétricos na Europa alargada (União Europeia, EFTA e Reino Unido) atingiu os 22% no primeiro semestre de 2026, um crescimento de 5 pontos percentuais face ao mesmo período de 2025, com mais de 1,6 milhões de unidades vendidas, mais 35,1% do que um ano antes. Só na União Europeia, a quota ficou nos 20,7%, com 1.220.890 unidades registadas, um salto homólogo de 40,5%.
O topo da tabela já não é sobre crescimento, é sobre esgotar o mercado
A Noruega continua isolada no topo, num patamar que já não é sequer comparável ao resto da Europa: 97,6% de quota em julho de 2026, segundo dados da Federação Rodoviária Norueguesa (OFV), com a frota elétrica do país a ultrapassar pela primeira vez o milhão de veículos. Praticamente já não há mercado de carros novos a combustão na Noruega, e o pequeno crescimento que ainda se regista, apenas 1,3% no primeiro semestre, reflete mais uma antecipação de compras antes de um corte no benefício fiscal (a isenção de IVA passou a aplicar-se só até 300 mil coroas do preço do carro, em vez de 500 mil) do que qualquer travão real na procura.
A Dinamarca é o segundo caso mais impressionante, e o que mais rapidamente mudou de patamar: a quota saltou de 63,8% para 79,9% num só ano, com um crescimento homólogo de 41,2% em vendas, o maior aumento percentual entre os grandes mercados europeus. Já quatro em cada cinco carros novos vendidos na Dinamarca são 100% elétricos.
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Abrir o comparador →Portugal aparece onde poucos esperariam: à frente da Alemanha
É aqui que a história fica mais interessante para o nosso público. Fora do grupo nórdico, Portugal está entre os mercados europeus mais avançados, com uma quota que já ultrapassou os 30% em julho, segundo os dados que já noticiámos aqui a partir da ACAP. Para dar a devida perspetiva: a Alemanha, o maior mercado automóvel da Europa em volume absoluto, com 368.006 elétricos vendidos no primeiro semestre, fechou o período com uma quota de 24,8%, a subir dos 17,7% do ano anterior, mas ainda abaixo do nível português. A França, o outro gigante europeu, atingiu os 28% em junho, com o segmento a crescer 62,9% no semestre, um dos ritmos mais acelerados entre os grandes mercados.

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O grupo nórdico e do Benelux continua, ainda assim, à frente de Portugal em termos absolutos de quota: a Finlândia (45%) e a Suécia (40%) lideravam o pelotão intermédio no início do ano, seguidas da Bélgica (33%), dos Países Baixos (27%) e do Luxemburgo (26%). Mas Portugal, com uma quota já acima dos 30%, colocou-se num patamar equivalente ou superior ao de vários destes mercados, um resultado que confirma aquilo que os dados da ACAP já sugeriam: o país deixou de ser um seguidor tardio da eletrificação europeia para passar a estar entre os mercados de referência do continente.
Os países que ainda ficam muito para trás
No extremo oposto está um grupo de mercados onde a eletrificação continua a avançar a passo lento, sobretudo na Europa de Leste e do Sul. A Polónia mantém-se como um dos casos mais persistentes de resistência, com uma quota que rondava apenas os 5,1% a meio do ano, e que chegou mesmo a cair 26% em maio, um dos poucos recuos homólogos registados entre os grandes mercados europeus nesse mês. A Eslováquia, com 6,6% de quota, está no mesmo patamar de atraso. A Itália é o caso mais paradoxal: apesar de as vendas terem crescido 77,7% no primeiro semestre, um dos ritmos mais rápidos de toda a Europa, a quota de mercado continua a ficar bem abaixo da média europeia, muito por causa de uma base de partida extremamente baixa e de uma dependência histórica ainda forte dos motores a combustão e dos híbridos convencionais.
O que está a impulsionar este crescimento
Segundo o ICCT, a subida acentuada da quota elétrica na Europa em 2026 está diretamente ligada à revisão de benefícios fiscais e a esquemas de apoio à compra em vários dos principais mercados, com destaque para a Alemanha, a França e a própria Dinamarca. Entre os grandes construtores, o grupo BMW liderou a eletrificação entre janeiro e maio, com 27% das suas vendas europeias já a serem elétricas, seguido de perto pela Mercedes-Benz, que subiu 7 pontos percentuais face ao ano anterior, e pela Toyota, que duplicou a sua quota elétrica de 5% para 10% no mesmo período, um sinal de que mesmo os construtores historicamente mais cautelosos com os elétricos já não conseguem ficar de fora desta tendência.
Fontes: International Council on Clean Transportation (ICCT), ACEA, electrive.com, Fuel Cells Works, Eleport, Car Sales Statistics.
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