A partir de 18 de fevereiro de 2027, a bateria do teu elétrico vai ter passaporte digital, mas só vês metade da história
Comprar um elétrico em segunda mão continua a ser, hoje, um exercício de confiança. O vendedor garante que a bateria está bem, mostra talvez um relatório informal de oficina, e o comprador decide se acredita ou não. Não há padrão nenhum que obrigue a mostrar o estado de saúde real da bateria, o tal SOH que determina quanta autonomia resta ao carro. Um levantamento da Autovista24, de julho de 2025, mostrou que só metade dos anúncios de elétricos usados na Europa inclui esse dado, e que a incerteza sobre a degradação é apontada por quase metade dos compradores hesitantes como razão para desistir. Isto está prestes a mudar, embora não ao ritmo que muita gente espera.
A partir de 18 de fevereiro de 2027, todas as baterias de elétricos novos colocados no mercado da União Europeia terão de ter um passaporte digital. Não é um documento em papel, são dados estruturados, acessíveis por um código QR ligado a um identificador único, exigido pelo Regulamento (UE) 2023/1542. A obrigação estende-se a e-bikes, trotinetas, armazenamento doméstico e baterias industriais acima de 2 kWh, mas é no automóvel que o impacto se vai sentir com mais força.
O passaporte inclui características técnicas, como capacidade, tensão, potência e gama de temperaturas. Inclui também dados de desempenho e durabilidade, como ciclos de vida, resistência interna, eficiência e estado de saúde ao longo do tempo, apoio à reparação e reciclagem, e dados de sustentabilidade raramente vistos hoje pelo consumidor, como a pegada de carbono, a composição de materiais e a origem de lítio, cobalto, níquel e grafite.
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Abrir o comparador →Mas há um pormenor que escapa a quem só ouve falar do prazo: nem toda a gente vai ver tudo. O dono do carro terá acesso apenas a uma versão simplificada dos dados. A informação mais sensível, como a química das células, fica reservada a fabricantes, oficinas autorizadas, autoridades e recicladores. É transparência real, mas parcial. A Comissão Europeia confirmou, num webinar da DG GROW a 27 de maio de 2026, que o prazo se mantém de pé, e que os dados serão descentralizados, guardados pelas próprias empresas.

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A indústria reconhece que há trabalho pela frente. Num evento em Bruxelas a 10 de março de 2026, organizado pela Global Battery Alliance, a RECHARGE, associação europeia de fabricantes, admitiu que a preparação está avançada, mas apontou obstáculos: pequenas empresas com menos capacidade, dados que mudam ao longo da vida da bateria, tensão entre transparência e segredo sobre a química das células, rastreabilidade incompleta na cadeia de fornecimento e falta de auditores qualificados. Em junho de 2026, o CEN/CENELEC avançou com as normas harmonizadas.
Para quem pondera comprar um elétrico novo, ou prefere esperar por um usado com mais garantias, vale a pena gerir expectativas. O passaporte só se aplica a baterias colocadas no mercado a partir de 2027, e só quando esses carros chegarem ao mercado de usados, por volta de 2029 ou 2030, o efeito se vai sentir a sério: comparar a degradação real de duas baterias deverá tornar-se tão simples como comparar hoje a quilometragem certificada de dois carros a combustão. Até lá, comprar às cegas continua a ser a regra.
Fontes: Comissão Europeia (Regulamento UE 2023/1542), Global Battery Alliance e RECHARGE (Bruxelas, 10 de março de 2026), Minespider (15 de junho de 2026) e Autovista24 (29 de julho de 2025).
Comprarias hoje um elétrico em segunda mão só com a palavra do vendedor sobre a bateria, ou preferes esperar até haver dados verificáveis? E achas justo que o comprador comum só veja uma versão resumida da informação que fabricantes e oficinas têm por completo?
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