As queixas sobre carros elétricos em Portugal quase triplicaram em dois anos, e o motivo não é o que se imagina
O crescimento acelerado dos elétricos em Portugal trouxe consigo um efeito colateral que raramente aparece nas conversas sobre o setor: as reclamações dos consumidores dispararam. Segundo dados do Portal da Queixa divulgados a 20 de agosto, foram registadas 205 reclamações relacionadas com carros elétricos entre janeiro e julho de 2026, contra apenas 75 no mesmo período de 2024, um aumento acumulado de 173%. Mesmo comparando só com o ano passado, quando tinham sido registadas 107 queixas no mesmo intervalo, o crescimento homólogo foi de 92%.
Este salto ganha ainda mais peso quando comparado com o crescimento do próprio mercado: as matrículas de elétricos em Portugal aumentaram cerca de 79% no mesmo período, de 22.531 para 40.309 unidades, segundo dados da ACAP. Ou seja, as queixas cresceram mais do dobro depressa do que as vendas, um sinal de que o problema não é só uma questão de “mais carros, mais reclamações”.
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Abrir o comparador →E aqui está o dado mais revelador: a esmagadora maioria das queixas não tem nada a ver com o carro em si, no sentido mecânico ou tecnológico. A reparação e a manutenção representam 40% das reclamações, e o atendimento e a qualidade do serviço correspondem a outros 32%, o que significa que 72% de toda a insatisfação regista-se depois da compra, não durante a decisão de comprar. A qualidade e a segurança do produto, essas, ficam-se pelos 16%. As restantes queixas dividem-se entre questões financeiras e de pagamentos (6%) e questões legais e contratuais (6%).
Entre as marcas identificadas nas reclamações, a BYD lidera com 17% do total, seguida de perto pela Tesla, com 15%. Segundo o Portal da Queixa, os relatos incluem problemas técnicos persistentes, reparações que não resolvem a avaria original, dificuldades em acionar garantias, e insatisfação generalizada com os processos de atendimento e comunicação das marcas. A maior parte das reclamações (71%) é dirigida diretamente aos fabricantes automóveis, e apenas 18% aos concessionários. Geograficamente, Lisboa e Porto concentram, em conjunto, mais de metade das queixas registadas em 2026 (55,77%), seguidas por Setúbal (8,65%) e Braga (7,69%).

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Há, no entanto, um dado que contraria a leitura mais pessimista destes números: apesar do forte crescimento nas reclamações, a satisfação média reportada pelo Portal da Queixa também subiu, de 3,15 pontos em 2025 para 3,30 em 2026, um aumento de 4,82%. Ou seja, mais pessoas estão a queixar-se, mas quem se queixa tende a ficar, no final, um pouco mais satisfeito com a resposta que recebe.
Pedro Lourenço, fundador do Portal da Queixa by Consumers Trust, resume assim o que estes números realmente significam: “o desafio da mobilidade elétrica já não está apenas no produto, mas também na experiência de pós-venda”. Na sua leitura, o peso das queixas ligadas a reparação, manutenção e atendimento coloca “a capacidade de resposta das marcas no centro da confiança do consumidor”. É uma conclusão que se encaixa, de resto, num padrão que já vimos aqui noutros contextos: os elétricos continuam a resolver bem os seus problemas técnicos de origem, mas a estrutura de pós-venda, oficinas especializadas, peças disponíveis e capacidade de resposta das marcas, ainda não acompanhou o ritmo a que o mercado está a crescer.
Fontes: Razão Automóvel, Notícias ao Minuto, Jornal Económico, TugaTech, e-auto.pt, Executive Digest.
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