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Avó como testa de ferro: como famílias ricas na Alemanha estão a usar o incentivo aos elétricos para pagar Porsches e Mercedes de luxo

Redação Eletrificados · 17 de agosto de 2026·3 min de leitura
Avó como testa de ferro: como famílias ricas na Alemanha estão a usar o incentivo aos elétricos para pagar Porsches e Mercedes de luxo

O programa alemão de incentivos à compra de elétricos, dotado de 3 mil milhões de euros e lançado este ano pelo ministro do Ambiente, Carsten Schneider, prometia tornar a mobilidade elétrica mais acessível a famílias de rendimento médio e baixo. Mas uma investigação do órgão de comunicação NIUS revelou um padrão que levanta suspeitas: um número anormalmente elevado de pedidos vindos da faixa de rendimento mais baixa (menos de 45.000 euros de rendimento tributável) pede incentivos precisamente para os carros mais caros do mercado, incluindo Porsches elétricos com preço de tabela a partir de 81.200 euros, além de Teslas e BMW.

A explicação mais plausível, segundo a investigação, não é que reformados estejam subitamente a comprar Porsches: é que pessoas com patrimónios elevados mas sem rendimento tributável relevante, muitas vezes avós já reformados, estão a ser registadas como titulares do pedido, uma prática conhecida na Alemanha como usar alguém como “Strohfrau” ou “Strohmann”, ou seja, testa de ferro. O NIUS confrontou o Departamento Federal para a Economia e Controlo de Exportações (BAFA), a entidade responsável por processar os pedidos, com casos concretos, mas recebeu recusas sucessivas em fornecer dados detalhados sobre quem está a pedir o quê.

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Este não é sequer o único mecanismo identificado. A Deutsche Umwelthilfe (DUH), uma das mais influentes organizações ambientais alemãs, foi mais longe numa análise publicada em janeiro: mostrou que mesmo agregados familiares com rendimentos acima dos 90.000 euros, portanto claramente fora do público-alvo declarado do programa, conseguem aceder à ajuda de forma totalmente legal. Basta que o carro seja registado em nome de um familiar com rendimento tributável mais baixo, como um avô reformado ou um filho ainda a estudar, para que a família alargada beneficie do incentivo máximo de 6.000 euros, mesmo que o dinheiro do carro venha efetivamente de outro membro da família com rendimentos muito mais elevados. Jürgen Resch, diretor-geral da DUH, foi direto na crítica, classificando esta possibilidade como um desvio de fundos climáticos para financiar, indiretamente, a compra de automóveis de luxo.

A isto soma-se uma terceira falha identificada pela DUH: a forma como o programa trata os híbridos plug-in permite que SUV de grande porte e forte cilindrada, como o Porsche Cayenne S, o Audi Q8 ou variantes da Mercedes Maybach, com motores a gasolina de até 400 cavalos, sejam também elegíveis para o incentivo, desde que cumpram apenas um entre dois critérios alternativos de emissões ou autonomia elétrica, em vez de terem de cumprir ambos.

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O Ministério do Ambiente já reagiu publicamente a estas críticas, mas recusa, para já, alterar as regras do programa. Um porta-voz do ministério disse ao Handelsblatt que o financiamento de veículos de gama alta é apenas “um fenómeno muito marginal”, sublinhando que mais de 80% dos carros apoiados custam menos de 50.000 euros, e que impor um teto de preço aumentaria a burocracia do processo, tanto para os fabricantes como para os candidatos. Segundo dados divulgados pelo BAFA, até 1 de agosto de 2026 tinham sido aprovados 26.875 pedidos, com um total de 117 milhões de euros já pagos em incentivos.

Fica por saber se o Bundestag vai intervir para fechar estas brechas antes de o programa avançar mais, ou se a promessa original de Carsten Schneider, a de tornar os elétricos acessíveis a quem tem menos recursos, vai continuar a coexistir, na prática, com avós a assinar pedidos de Porsche em nome de netos com carteiras bem mais recheadas.

Fontes: NIUS, Deutsche Umwelthilfe (DUH), ecomento.de, KlimaNachrichten.

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