Os carros elétricos estão a ficar melhores, mas há um problema que ninguém resolveu: os ecrãs
Baterias mais eficientes, carregamento mais rápido, autonomia mais previsível. Em quase todos os aspetos técnicos que já explorámos aqui, os elétricos estão genuinamente a melhorar ano após ano. Mas há um problema que, em vez de melhorar, se agravou durante a última década, e que a própria indústria de segurança automóvel já não consegue ignorar: a substituição quase total de comandos físicos por ecrãs táteis.
Os números por trás da preocupação
Um estudo britânico amplamente citado testou o tempo de reação de condutores a usar sistemas de infoentretenimento por ecrã tátil, e o resultado foi mais grave do que a maioria esperava: os condutores reagiram mais devagar do que alguém acima do limite legal de álcool no sangue, e ainda mais devagar do que alguém que tinha consumido canábis. Segundo dados citados pela organização europeia de segurança rodoviária ETSC, os acidentes ligados a distração ao volante subiram cerca de 20% desde 2020, um período que coincide exatamente com a generalização de ecrãs cada vez maiores a substituir botões físicos. Estudos técnicos mostram que interações baseadas em ecrã tátil podem distrair um condutor entre 5 e 40 segundos por tarefa, sobretudo quando o sistema não tem qualquer resposta tátil, e outras análises encontraram consistentemente que os condutores tiram os olhos da estrada entre 2 a 4 segundos a mais quando usam um ecrã em vez de um botão físico, um intervalo que, a 100 km/h, corresponde a percorrer dezenas de metros às cegas.
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Abrir o comparador →A resposta regulatória já chegou, e é significativa
A partir de janeiro de 2026, o Euro NCAP, o organismo europeu de referência em avaliação de segurança automóvel, deixou de dar a classificação máxima de cinco estrelas a qualquer carro que dependa inteiramente de um ecrã tátil para funções essenciais: sinais de mudança de direção, luzes de perigo, buzina, limpa para-brisas e o sistema de chamada de emergência eCall. Matthew Avery, diretor de desenvolvimento estratégico do Euro NCAP, resumiu o problema de forma direta: o uso excessivo de ecrãs tornou-se “um problema de toda a indústria”, com praticamente todos os fabricantes a moverem comandos essenciais para ecrãs centrais, “obrigando os condutores a tirar os olhos da estrada e aumentando o risco de acidentes por distração”. É a maior revisão dos protocolos do Euro NCAP desde 2009, e passa a avaliar não só a proteção em caso de acidente, mas também a capacidade do carro de evitar distrair o condutor antes de esse acidente sequer acontecer.

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A resposta da indústria já é visível
Como cerca de 90% dos compradores europeus consultam a classificação Euro NCAP antes de decidir uma compra, a pressão sobre os fabricantes é real e imediata. A Volkswagen, a Hyundai e a Nissan já estão a repor botões e comandos físicos em modelos que, há poucos anos, os tinham eliminado quase por completo, um recuo que os próprios designers destas marcas já admitiram publicamente ser necessário, reconhecendo que “a era do ecrã foi longe de mais”. É um sinal significativo: durante mais de uma década, a indústria tratou o desaparecimento de botões como sinónimo de modernidade e de design premium. Agora, é precisamente o oposto, a presença de comandos físicos bem posicionados, que começa a ser valorizada como argumento de segurança e de qualidade percebida.
Porque é que isto ainda não está resolvido
O problema de fundo é que a nova regra do Euro NCAP cobre apenas cinco funções essenciais, deixando de fora a esmagadora maioria das interações do dia a dia, como ajustar a temperatura, escolher uma estação de rádio ou configurar a navegação, que continuam, na maioria dos modelos, sepultadas dentro de menus de ecrã tátil de várias camadas. Frank Mütze, especialista em segurança de veículos do ETSC, já tinha avisado que as diretrizes voluntárias da União Europeia “não estão a funcionar, porque os ecrãs táteis e os sistemas de infoentretenimento atuais são distrativos e inseguros”, defendendo que a solução real passa por exigências legalmente vinculativas para todos os veículos, não apenas por um incentivo indireto através de uma classificação de segurança. Até essa mudança mais ampla acontecer, o condutor comum continua, hoje, a navegar menus digitais para tarefas que, há dez anos, se resolviam com um único gesto, sem sequer precisar de olhar.
Fontes: MotorBeam, Carwow, Cartoq, ETSC (European Transport Safety Council), Global Brands Magazine, AckoDrive.
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