O setor automóvel dos EUA está dividido sobre deixar entrar as marcas chinesas, e os números explicam porquê
A possibilidade de as marcas chinesas de automóveis entrarem finalmente no mercado norte-americano está a dividir profundamente o setor: concessionários mostram-se claramente apreensivos, enquanto uma parte significativa dos consumidores já se diz recetiva a comprar um carro chinês, mesmo com as tarifas superiores a 100% e o escrutínio político que hoje mantêm essas marcas de fora dos Estados Unidos.
Os consumidores estão mais abertos do que o debate político sugere
Segundo um inquérito do Dave Cantin Group, mais de metade dos consumidores norte-americanos (51%) considerariam comprar um veículo fabricado na China, uma percentagem que sobe para 77% entre os consumidores com menos de 35 anos. Quase 30% dos que se mostram recetivos estariam mesmo dispostos a pagar 45 mil dólares ou mais por um desses veículos, uma cifra que contraria a ideia de que o interesse por marcas chinesas se resume apenas a quem procura o preço mais baixo possível. Um inquérito separado da Harris Poll encontrou uma abertura semelhante em ambos os lados do espectro político: 43% dos republicanos e 55% dos democratas afirmaram que provavelmente ou definitivamente considerariam comprar um veículo de uma marca chinesa.
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Do outro lado do debate, os concessionários já demonstram uma apreensão crescente. Rob Cochran, presidente da Associação Nacional de Concessionários Automóveis dos EUA (NADA), resumiu o sentimento predominante no setor numa recente conferência: “eventualmente, vão chegar”. A preocupação da indústria tradicional já levou a Alliance for Automotive Innovation, associação que representa os maiores fabricantes norte-americanos, a classificar publicamente uma eventual entrada chinesa em massa como potencialmente “um evento de nível de extinção para o setor automóvel dos EUA”, uma reação direta ao facto de a própria BYD já vender, fora dos Estados Unidos, um SUV elétrico compacto por cerca de 14 mil dólares, um valor muito abaixo do elétrico mais barato atualmente à venda nos EUA, o Chevrolet Equinox EV, a partir de 33.600 dólares.
Marcas chinesas já não estão à espera de barreiras tarifárias caírem
Talvez o dado mais revelador desta história seja o que já está a acontecer fora dos Estados Unidos: as marcas chinesas não estão a aguardar passivamente por uma eventual abertura do mercado americano, estão antes a construir fábricas dentro das próprias barreiras comerciais de outros mercados. A BYD já tem fábricas em construção na Hungria e na Turquia; a Leapmotor está a produzir em Espanha, em parceria com a Stellantis, que já explicámos aqui em detalhe; e a GAC e a Xpeng recorrem à Magna International para produzir na Áustria. Segundo dados citados pelo próprio setor, as marcas chinesas já atingiram cerca de 10% de quota de mercado na Europa e no México em menos de cinco anos, um ritmo de crescimento muito mais rápido do que os quase 20 anos que os construtores japoneses e coreanos precisaram para atingir uma penetração semelhante.
Fontes: Automotive News, Dave Cantin Group, Harris Poll, Alliance for Automotive Innovation, Cox Automotive.
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