“Nunca comprarei um carro chinês!” Mas sabe quem está por trás da Volvo, Mercedes, Lotus e Aston Martin?
O investimento chinês na indústria automóvel europeia não começou ontem. Há mais de uma década que a Geely, um gigante automóvel da China, compra fabricantes históricos, estabelece parcerias tecnológicas e investe em algumas das marcas mais prestigiadas do mundo.
Quando se fala de automóveis chineses, ainda é frequente ouvir uma afirmação categórica: “Eu nunca comprarei um carro chinês!”
Para muitos consumidores, as marcas europeias continuam a representar tradição, segurança, qualidade e prestígio, enquanto os fabricantes chineses são frequentemente encarados com desconfiança.
Mas existe uma realidade que muitos desconhecem: algumas dessas marcas europeias têm acionistas chineses há muitos anos. Outras são efetivamente controladas por grupos chineses e há ainda fabricantes que partilham com eles plataformas, motores e desenvolvimento tecnológico.
No centro desta transformação encontra-se uma empresa que muitos europeus provavelmente nunca ouviram mencionar: a Geely.
Afinal, quem é a Geely?
A Zhejiang Geely Holding Group é um grupo empresarial privado de origem chinesa, fundado em 1986 por Li Shufu, na província de Zhejiang, na China.
Atualmente, o grupo tem sede em Hangzhou e desenvolve atividades que vão muito além do fabrico de automóveis.
A Geely entrou na indústria automóvel em 1997, iniciando um percurso que, em menos de três décadas, a transformaria num dos grandes protagonistas mundiais do setor.
Em 2025, o grupo vendeu aproximadamente 4,12 milhões de veículos, dos quais cerca de 2,29 milhões eram veículos de novas energias, categoria que inclui elétricos e híbridos plug-in.
Mas foi sobretudo através da aquisição de marcas estrangeiras e de participações estratégicas que a Geely conquistou uma posição de destaque na indústria automóvel internacional.
Volvo: uma marca sueca com controlo chinês desde 2010
A história começa com uma das marcas europeias mais respeitadas em matéria de segurança automóvel.
Em 2010, a Geely comprou a Volvo Cars à norte-americana Ford.
Sim, a Volvo Cars, fabricante dos conhecidos automóveis suecos, é controlada por um grupo chinês há mais de 16 anos.
A operação não significou o desaparecimento da identidade sueca da Volvo. A empresa manteve a sua sede na Suécia, preservou a marca e continuou a desenvolver os seus automóveis.
No entanto, passou a integrar um grupo empresarial controlado por investidores chineses.
Convém distinguir a Volvo Cars da AB Volvo, fabricante de camiões, autocarros e equipamentos industriais. São empresas distintas, embora a Geely também detenha uma participação minoritária relevante na AB Volvo.
Lotus: os desportivos britânicos também passaram para mãos chinesas
Em 2017, a Geely adquiriu uma participação de controlo de 51% na histórica fabricante britânica Lotus.
A marca, conhecida pelos seus automóveis desportivos leves e pelo legado de Colin Chapman, passou a integrar a estratégia internacional do grupo chinês.
A Lotus manteve a sua identidade britânica, mas a influência financeira e tecnológica da Geely tornou-se determinante no desenvolvimento de uma nova geração de veículos, incluindo modelos elétricos.
Mercedes-Benz: o fundador da Geely é um dos maiores acionistas
E se alguém considerar que a Mercedes-Benz representa uma alternativa completamente desligada do investimento chinês?
A realidade é mais complexa.
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Abrir o comparador →Em fevereiro de 2018, Li Shufu, fundador da Geely, adquiriu uma participação de 9,69% na então Daimler, atualmente Mercedes-Benz Group.
A participação mantém-no entre os maiores acionistas conhecidos da fabricante alemã.
Isto não significa que a Geely seja proprietária da Mercedes-Benz, nem que controle as suas decisões.
Significa, contudo, que um dos mais importantes empresários da indústria automóvel chinesa investiu diretamente numa das marcas alemãs mais prestigiadas do mundo.
E a relação não ficou pelo investimento financeiro.
Smart: metade Mercedes-Benz, metade Geely
Em 2019, Mercedes-Benz e Geely anunciaram uma parceria para transformar a smart numa marca de automóveis elétricos.
O resultado foi uma empresa conjunta detida em partes iguais pelos dois grupos.
Atualmente, a Geely e a Mercedes-Benz detêm, cada uma, 50% da sociedade responsável pelos novos automóveis smart.
O desenho dos veículos conta com a participação da Mercedes-Benz, enquanto o desenvolvimento tecnológico e a produção beneficiam fortemente da estrutura industrial chinesa.
Ou seja, quem compra um smart elétrico moderno está a adquirir um automóvel desenvolvido no âmbito de uma parceria entre dois gigantes: um alemão e outro chinês.

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Aston Martin: o investimento chinês chegou ao luxo britânico
A Aston Martin, uma das mais emblemáticas fabricantes britânicas de automóveis de luxo, também recebeu investimento da Geely.
O grupo chinês entrou no capital da empresa em 2022 e, em maio de 2023, aumentou a sua participação para aproximadamente 17%.
Essa percentagem foi posteriormente afetada por alterações na estrutura acionista, mas a Geely continuou a ser um investidor relevante.
A Aston Martin não pertence à Geely. Contudo, a presença de capital chinês numa marca tão associada ao luxo britânico demonstra até que ponto a indústria automóvel se tornou internacional.
Renault: uma relação que vai muito além de uma simples participação
A ligação entre a Geely e o grupo francês Renault é especialmente interessante.
Em 2022, a Geely adquiriu 34,02% da Renault Korea, a operação sul-coreana da fabricante francesa.
Mas as duas empresas aprofundaram a sua colaboração.
Em 2024, criaram a HORSE Powertrain, uma empresa internacional especializada no desenvolvimento e fabrico de motores de combustão e sistemas de propulsão híbridos.
Com a entrada da petrolífera saudita Aramco, a estrutura acionista passou a ser:
- Renault Group: 45%;
- Geely: 45%;
- Aramco: 10%.
Isto significa que a Renault e a Geely são parceiras na produção de tecnologia que pode equipar veículos de diferentes fabricantes.
A colaboração estende-se ainda a outros mercados, como o Brasil.
Importa esclarecer: a Geely não é proprietária da Renault francesa. São grupos independentes que mantêm participações e projetos industriais em conjunto.
Zeekr, Polestar e Lynk & Co: as marcas criadas para competir globalmente
A Geely não se limitou a adquirir fabricantes tradicionais.
Também participou na criação e desenvolvimento de novas marcas, posicionadas em segmentos muito diferentes.
A Zeekr aposta nos veículos elétricos de gama superior.
A Polestar desenvolve automóveis elétricos de elevado posicionamento tecnológico, com fortes raízes suecas e uma estrutura acionista que envolve o universo Geely.
A Lynk & Co nasceu de uma colaboração entre empresas do grupo e desenvolveu uma identidade própria, combinando engenharia internacional com tecnologia e produção chinesas.
Estas marcas demonstram que a Geely pretende competir não apenas pelo preço, mas também pela tecnologia, pelo design e pelo posicionamento premium.
A indústria automóvel já não tem fronteiras tão claras
Durante décadas, identificar a nacionalidade de um automóvel parecia relativamente simples.
Um Volvo era sueco. Um Mercedes era alemão. Um Lotus era britânico. Um Renault era francês.
Hoje, a realidade é muito mais complexa.
Uma marca pode ter sede na Europa, acionistas chineses, desenvolvimento tecnológico repartido por vários países e produção em diferentes continentes.
É igualmente importante distinguir três conceitos: a nacionalidade da marca, o país onde o automóvel é fabricado e a nacionalidade dos seus acionistas.
Um automóvel europeu com acionistas chineses não se transforma automaticamente num automóvel fabricado na China. Da mesma forma, um automóvel de uma marca europeia pode ser produzido numa fábrica chinesa.
Então faz sentido dizer “nunca comprarei um carro chinês”?
Naturalmente, cada consumidor é livre de escolher o automóvel que prefere, tendo em conta o preço, a segurança, a fiabilidade, a origem da produção ou qualquer outro critério.
Contudo, rejeitar um automóvel apenas por pertencer a uma marca chinesa, enquanto se desconhecem as ligações financeiras e industriais entre fabricantes europeus e chineses, pode revelar uma visão incompleta da indústria atual.
A China deixou há muito de ser apenas um país onde se fabricam produtos para empresas estrangeiras.
Hoje, grupos chineses compram marcas históricas, financiam fabricantes europeus, desenvolvem plataformas, produzem tecnologia e participam nas decisões estratégicas da indústria automóvel mundial.
A Geely é um dos exemplos mais evidentes dessa transformação.
Da próxima vez que alguém disser “eu nunca comprarei um carro chinês”, talvez valha a pena perguntar: conhece realmente quem está por trás da marca do carro que conduz?
Porque, na indústria automóvel de 2026, a bandeira colocada no emblema nem sempre conta a história completa.
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