Os travões de um elétrico podem durar até três vezes mais, mas há um senão
Não é raro ouvir donos de carros elétricos dizerem que ainda não trocaram as pastilhas de travão passados muitos anos e dezenas de milhares de quilómetros. Não é coincidência nem sorte: é o resultado direto de como um elétrico trava.
Como funciona a travagem regenerativa
Quando o condutor levanta o pé do acelerador ou pressiona ligeiramente o travão, o motor elétrico inverte o seu papel: em vez de consumir energia da bateria para mover o carro, passa a funcionar como um gerador, transformando a energia cinética do movimento de volta em eletricidade, que regressa à bateria. Só quando é preciso uma travagem mais forte, ou parar por completo, é que os travões de fricção tradicionais, discos e pastilhas, entram verdadeiramente em ação. É essa lógica que permite a chamada "condução a um pedal", em que se controla praticamente toda a viagem apenas com o acelerador.
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Abrir o comparador →Um estudo publicado na revista científica ScienceDirect concluiu que a travagem regenerativa reduz a necessidade de travagem por fricção entre 65% e 87% em híbridos, e entre 69% e 95% em híbridos plug-in, quando comparados com um equivalente a combustão. Nos elétricos puros, essa redução tende a ser ainda maior. Na prática, isto traduz-se em pastilhas que chegam com frequência aos 100 mil a 150 mil quilómetros antes de precisarem de substituição, e discos que, em climas amenos, podem durar toda a vida útil do carro.
Também significa menos poeira de travão no ar
A vantagem não fica só na carteira do condutor. Um estudo conjunto da EIT Urban Mobility e da Transport for London, realizado em Londres, Milão e Barcelona, concluiu que os elétricos a bateria emitem 83% menos poeira de travão do que um carro a gasolina equivalente, com os híbridos plug-in a reduzirem 66%, e os híbridos convencionais entre 10% e 48%. Mesmo sendo, em média, cerca de 20% mais pesados por causa da bateria, os elétricos ainda assim emitem 38% menos poluição total por desgaste, somando travões, pneus e piso da estrada, do que os equivalentes a gasolina, precisamente porque a poeira de travão costuma pesar mais nessa conta do que o desgaste dos pneus. Esta vantagem já está reconhecida na regulamentação europeia: o novo regulamento Euro 7, que impõe pela primeira vez limites às emissões de partículas de travão, aplica aos elétricos puros um fator de correção que conta apenas 15% das emissões medidas, precisamente por reconhecer o efeito da travagem regenerativa.

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O senão: travões que enferrujam por falta de uso
Há, no entanto, um problema pouco falado: precisamente por serem usados com muito menos frequência, os travões de fricção de um elétrico aquecem menos, e é esse calor que, num carro a combustão, ajuda a evaporar a humidade acumulada nos discos. Sem esse aquecimento regular, a humidade e o sal das estradas de inverno acumulam-se mais facilmente, formando ferrugem nos discos e nas pinças. Em casos extremos, isto pode obrigar a substituir discos que ainda tinham material de sobra, ou provocar um desgaste desigual entre pastilhas do mesmo eixo, por uma pinça mais presa do que a outra. Não é por acaso que a Tesla recomenda uma revisão completa dos travões uma vez por ano, independentemente da quilometragem percorrida.
Como evitar o problema
A recomendação mais comum entre oficinas especializadas é simples: travar com força, de forma deliberada e apenas mecânica, uma vez por semana, numa estrada vazia e segura, para "raspar" a camada de ferrugem superficial e manter as pastilhas em bom estado. Vale ainda a pena manter as inspeções aos travões nos intervalos recomendados pelo fabricante, mesmo que as pastilhas pareçam ter pouco desgaste, e não esquecer o líquido de travões, que se degrada com o tempo por absorver humidade do ar, e não com a quilometragem, exigindo substituição a cada dois a quatro anos independentemente de quanto o carro é usado. Já existem no mercado pastilhas e discos com revestimentos específicos para resistir melhor a este tipo de corrosão, pensados especificamente para elétricos.
Olhando para o futuro, a Mercedes-Benz já mostrou um conceito de travões integrados dentro do próprio motor elétrico, uma solução que praticamente eliminaria a produção de partículas de travão, mas que a marca reserva para uma geração de elétricos ainda mais à frente.
Fontes: EIT Urban Mobility, Transport for London, ScienceDirect, Ricardo.
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